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Inglaterra x Argentina: uma rivalidade construída pela guerra e eternizada nas Copas

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Nesta quarta-feira, às 16h (horário de Brasília), Argentina e Inglaterra entram em campo no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, por uma vaga na grande final da Copa do Mundo.

Mais do que um confronto entre duas das maiores seleções do planeta, o duelo carrega décadas de rivalidade e capítulos que ultrapassam o futebol. Entre eles, a Guerra das Malvinas e o histórico encontro na Copa do Mundo de 1986, eternizado pelos dois gols mais famosos da carreira de Diego Maradona.

As Malvinas

As Ilhas Malvinas são um arquipélago localizado no Oceano Atlântico Sul, a cerca de 600 quilômetros da costa argentina. Apesar da proximidade geográfica com a América do Sul, o território é administrado pelo Reino Unido desde 1833, enquanto a Argentina reivindica sua soberania até os dias atuais.

A disputa pelo arquipélago remonta aos séculos XVII e XVIII, quando franceses, espanhóis e britânicos reivindicavam a posse da região. Após conquistar sua independência da Espanha, a Argentina passou a considerar as ilhas parte de seu território.

No entanto, em 1833, forças britânicas assumiram definitivamente o controle da área.

Ao longo das décadas seguintes, a questão permaneceu como um dos principais pontos de tensão entre os dois países. Em 1965, a Organização das Nações Unidas reconheceu a existência da disputa de soberania e incentivou as negociações diplomáticas entre Argentina e Reino Unido, apesar disso, nenhum acordo foi alcançado.

Para argentinos e britânicos, as Malvinas representam muito mais do que um território. A soberania sobre o arquipélago tornou-se uma questão de identidade nacional, orgulho e importância estratégica, alimentando uma rivalidade que atravessou gerações.

Guerra e a rivalidade que chegou ao futebol

O momento mais delicado dessa disputa ocorreu em 1982, durante a ditadura militar argentina, quando Argentina e Reino Unido entraram em guerra pelo controle das ilhas.

A proximidade geográfica das Malvinas com o território argentino sempre foi um dos principais argumentos utilizados pelo país sul-americano, enquanto o Reino Unido defendia sua administração histórica sobre o arquipélago e o direito de autodeterminação da população local.

Em abril de 1982, a Argentina iniciou a chamada Operação Rosário, ocupando militarmente as ilhas. A resposta britânica foi imediata, dando início a um conflito que durou pouco mais de dois meses.

Ao final da guerra, o Reino Unido retomou o controle das Malvinas. O conflito deixou 649 soldados argentinos mortos, 255 militares britânicos e três civis das ilhas.

As consequências ultrapassaram o campo militar. Na Argentina, a derrota acelerou o fim da ditadura e abriu caminho para a redemocratização do país. Já no Reino Unido, a vitória fortaleceu politicamente o governo da primeira-ministra Margaret Thatcher, reeleita no ano seguinte.

Em 2013, um plebiscito realizado nas ilhas confirmou o desejo da ampla maioria dos moradores de permanecer sob administração britânica, posição que segue sendo rejeitada pelo governo argentino.

Quatro anos após o fim da guerra, o destino colocaria novamente argentinos e ingleses frente a frente.

Desta vez, não em um campo de batalha, mas no gramado do Estádio Azteca, na Copa do Mundo de 1986, em um dos jogos mais marcantes da história do futebol.

Maradona e o alívio argentino

Com o clima tenso antes mesmo de a bola rolar, mais de 114 mil pessoas lotaram o Estádio Azteca para acompanhar aquele que se tornaria um dos jogos mais emblemáticos da história do futebol.

Dezenas de militares foram mobilizados para garantir a segurança dos torcedores dentro e fora do estádio. Ainda assim, antes mesmo do apito inicial, já havia registros de confrontos entre integrantes das Barras Bravas argentinas e hooligans ingleses. Na chegada ao estádio, cartazes com os dizeres “Las Malvinas son Argentinas” reforçavam o peso político que envolvia a partida.

Em campo, a tensão das arquibancadas se refletiu nos primeiros 45 minutos. Argentina e Inglaterra fizeram um primeiro tempo equilibrado, com poucas oportunidades claras e muito estudo entre as equipes.

O nascimento de uma lenda

Na etapa final, Diego Armando Maradona escreveu definitivamente seu nome na história das Copas do Mundo.

Logo aos seis minutos, o camisa 10 abriu o placar com a mão, no lance que ficaria eternizado como “La Mano de Dios”. Após a bola entrar, Maradona comemorou discretamente, observando a reação do árbitro, enquanto os ingleses cercavam a arbitragem para protestar.

Quatro minutos depois, veio o lance que muitos consideram o maior gol da história das Copas. Maradona arrancou do meio-campo, deixou seis adversários para trás e venceu Peter Shilton para marcar o segundo gol argentino, eternizado como o “Gol do Século”.

Com a vantagem de 2 a 0, a Argentina passou a administrar o resultado, enquanto a Inglaterra aumentou a pressão ofensiva. Aos 36 minutos do segundo tempo, John Barnes fez grande jogada pela esquerda e cruzou para Gary Lineker diminuir o placar.

Apesar da pressão inglesa nos minutos finais, os argentinos seguraram a vantagem e venceram por 2 a 1.

Além de encaminhar a Argentina ao título mundial de 1986, a vitória ganhou um significado simbólico para boa parte dos argentinos, sendo interpretada como uma revanche esportiva após a Guerra das Malvinas.

Mesmo cercado de polêmicas, o “Gol de Mão” ajudou a construir a aura mística de Maradona. Já o “Gol do Século” consolidou definitivamente o camisa 10 como um dos maiores jogadores da história do futebol.

Em entrevista ao jornal The Guardian, em 2002, o ex-zagueiro Roberto Perfumo resumiu o sentimento argentino sobre aquela partida:

“Vencer aquele jogo contra a Inglaterra era o suficiente. Ganhar a Copa do Mundo era secundário para nós. Bater a Inglaterra era nosso verdadeiro objetivo.”

Outros capítulos da rivalidade

Após o histórico duelo de 1986, Argentina e Inglaterra voltaram a se enfrentar outras cinco vezes, duas delas em Copas do Mundo.

O primeiro reencontro aconteceu em 1991, em Wembley. Em amistoso bastante aguardado, as seleções empataram por 2 a 2, marcando o primeiro confronto após a histórica partida do México.

Na Copa do Mundo de 1998, na França, os rivais protagonizaram mais um duelo memorável, desta vez pelas oitavas de final.

A partida ficou marcada pela expulsão de David Beckham após uma reação sobre Diego Simeone. Com um jogador a menos, a Inglaterra resistiu durante todo o jogo, mas, após empate por 2 a 2, acabou eliminada nos pênaltis pela Argentina.

A expulsão transformou Beckham em alvo da imprensa inglesa, que o responsabilizou pela eliminação.

Quatro anos depois, na Copa do Mundo de 2002, as seleções voltaram a se enfrentar, desta vez ainda na fase de grupos. Precisando da vitória para seguir viva no torneio, a Inglaterra venceu por 1 a 0, com gol de pênalti de David Beckham, que viveu sua redenção após a expulsão em 1998. A derrota contribuiu para a eliminação precoce da Argentina naquela edição.

O último encontro entre as seleções aconteceu em novembro de 2005, em amistoso disputado em Genebra. Em um clima bem menos hostil do que nas décadas anteriores, a Inglaterra venceu por 3 a 2, encerrando uma sequência de jogos marcados por enorme tensão política e esportiva.

Copa do Mundo de 2026

Agora, duas décadas depois, a rivalidade ganha mais um capítulo.

Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma Copa do Mundo, desta vez valendo uma vaga na grande decisão. Será o primeiro confronto entre as seleções em 21 anos, o primeiro em um grande torneio desde 2002 e o primeiro em uma semifinal de Mundial.

Em Atlanta, uma das maiores rivalidades da história do futebol escreverá mais um capítulo.

FOTO: Internet/ Reprodução

Fonte: G1 e Imortais do Futebol

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